sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Igaçaba do Pico do Jabre


Texto de Vanderlei de Brito

Era comum entre os ameríndios sepultar seus mortos arrumados em urnas barro, principalmente os de etnia tupi. Ao que tudo indica, a primeira notificação de urnas funerárias ameríndias em nosso país data de 1618 e consta na obra “Diálogos das grandezas do Brasil”, de Ambrósio Fernandes Brandão, que relata ter explorado uma caverna na Capitania de Pernambuco onde encontrou inúmeros alguidares arrumados e, em cada um havia ossada de defunto em seu interior.
Em fins do século XIX, em sua “História Geral do Brasil”, Francisco Adolfo Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, informa sobre o achado de sepulcros indígenas na Província de Minas Gerais em urnas de barro decoradas com pinturas arabescas e pontinhos feitos de barro colorido todo envernizado com resina. Este achado, sem dúvidas, trata-se do que a arqueologia denomina de igaçaba, urnas funerárias pertencente aos grupos indígenas falantes de língua do troco tupi, classificada de tradição Tupiguarani. Basicamente, esta cerâmica caracteriza-se por estar confeccionada sob técnica de acordelamento, de paredes grossas, cozimento a fogo redutor ou incompleto e, geralmente, policrômica, apresentado desenhos geométricos nas cores branca, preta, cinza e vermelha, com fino acabamento.
Na Paraíba não faltam relatos de achados fortuitos de urnas de barro com seus respectivos enxovais fúnebres, cujas descrições indicam terem pertencido aos ameríndios do tronco tupi. Entretanto, o achado mais interessante de igaçaba em nosso território deu-se em meados da década de 60, quando o arqueólogo Marcos Albuquerque e o geólogo Cláudio de Castro, na realização de prospecção e reconhecimento que faziam aleatoriamente, conforme a oportunidade, uma das informações os levou ao Pico do Jabre onde encontraram uma urna funerária em poder do proprietário da fazenda, um certo Dr. Dantas, que a havia desenterrado em sua propriedade.
A urna, cuja fotografia foi publicada em diversas obras sobre pré-história do Nordeste, classificada como pertencente à tradição Tupiguarani, sub-tradição pintada, foi resgatada quase incólume e entregue ao pesquisador Marcos Albuquerque.
Depois desta visita casual ao Pico do Jabre, o arqueólogo não mais retornou à região. Atualmente está desenvolvendo pesquisas na selva amazônica em paralelo com o projeto de prospecção na construção da BR 101. Sobre este achado no Jabre, Marcos Albuquerque me revelou, na informalidade, acreditar que a região tem grande potencialidade arqueológico e é seu desejo um dia poder voltar lá para realizar a pesquisa com os elementos que dispõe hoje sobre as sociedades de cultura Tupiguarani.
Este achado no sertão paraibano demonstra a grande extensão territorial destes povos que, no período do descobrimento, a História registra que ocupavam tão somente as regiões litorâneas.

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